O Serviço Social e a tomada de decisão algorítmica: A utilização da inteligência artificial nos processos judiciais de promoção e proteção

Autores

DOI:

https://doi.org/10.33448/rsd-v15i1.50555

Palavras-chave:

Justiça, Crianças e Jovens, Tomada de Decisão, Serviço Social, Inteligência Artificial.

Resumo

Em Portugal, a tomada de decisão dos magistrados judiciais no âmbito dos processos judiciais de promoção e proteção fundamenta-se, particularmente, no trabalho dos assistentes sociais das Equipas Multidisciplinares de Assessoria aos Tribunais (EMAT), responsáveis, por exemplo, pela elaboração de relatórios e informações sociais e sujeitos a uma evidente pressão para alcançar as melhores decisões quanto à situação da criança ou jovem. A inteligência artificial (IA) apresenta-se como um recurso para garantir maior eficiência no processo de tomada de decisão dos assistentes sociais. Contudo, utilizar esta tecnologia para elaborar relatórios ou informações sociais acolhidas como meios de prova nos processos judiciais de promoção e proteção, levanta preocupações legítimas sobre o impacto da IA na decisão judicial. Neste artigo propomo-nos demonstrar que, embora seja possível recorrer a uma plataforma de IA para elaborar um relatório social no âmbito de um processo de promoção e proteção, a utilização deste tipo de tecnologia coloca em causa a tomada de decisão dos magistrados judiciais e, consequentemente, a realização da justiça. Concluímos que a incapacidade de reconstituir o caminho realizado pelo julgador até à tomada de decisão, bem como a dificuldade em explicar a sua fundamentação, eventualmente comprometida por um meio de prova produzido por IA, ameaça a imparcialidade e independência das decisões judiciais, de acordo com os instrumentos jurídicos nacionais e internacionais. Entendemos que o recurso à IA pelos agentes da justiça deve, obrigatoriamente, preservar todos os mecanismos que permitam o controlo e sindicância do processo de tomada de decisão por parte do magistrado judicial.

Referências

Aoki, N., Tatsumi, T., Naruse, G., & Maeda, K. (2024). Explainable AI for government: Does the type of explanation matter to the accuracy, fairness, and trustworthiness of an algorithmic decision as perceived by those who are affected? Government Information Quarterly, 41(4), Article 101965. https://doi.org/10.1016/j.giq.2024.101965

Assembleia da República. (1976). Constituição da República Portuguesa (7.ª revisão constitucional). https://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx

Assembleia da República. (1999). Lei de proteção de crianças e jovens em perigo (Lei n.º 147/99, de 1 de setembro, na redação em vigor). https://data.dre.pt/eli/lei/147/1999/09/01/p/dre/pt/html

Assembleia da República. (2012). Decreto-Lei n.º 83/2012, de 30 de março (Lei orgânica do Instituto da Segurança Social, I. P.). https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=1663

Assembleia da República. (2013). Código de Processo Civil (Lei n.º 41/2013, na redação em vigor). https://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=1959

Bolieiro, H., & Guerra, P. (2014). A criança e a família – uma questão de direito(s): Visão prática dos principais institutos do direito da família e das crianças e jovens (2.ª ed.). Coimbra Editora.

Chaudhary, B., Covarrubia, P., & Ng, G. Y. (2024). The judge, the AI, and the Crown: A collusive network. Information & Communications Technology Law, 33(3), 330–367.

Creswell, J. W. (2014). Research design: Qualitative, quantitative, and mixed methods approaches (4th ed.). Sage.

Ester Sánchez, A. T. (2025). La inteligencia artificial en la justicia: Desafíos y oportunidades en la toma de decisiones judiciales. Anales de la Cátedra Francisco Suárez, 59. https://doi.org/10.30827/acfs.v59i.31404

Huang, H. (2024). Applications of generative artificial intelligence in the judiciary: The case of ChatGPT. International Journal of Multiphysics, 18(2).

Jacobi, C. B., & Christensen, M. (2022). Functions, utilities and limitations: A scoping study of decision support algorithms in social work. Journal of Evidence-Based Social Work, 20(3), 323–341.

James, P., et al. (2023). Algorithmic decision-making in social work practice and pedagogy: Confronting the competency/critique dilemma. Social Work Education, 43(6), 1552–1569.

Kapur, I., Kennedy, R., & Hickman, C. (2025). Artificial intelligence algorithms, bias, and innovation: Implications for social work. Journal of Evidence-Based Social Work, 1–23.

Machado, J. B. (2007). Introdução ao direito e ao discurso legitimador. Almedina.

Marreiros, G. (2001). A criança, o direito e os direitos. In Estudos em homenagem a Cunha Rodrigues (Vol. II, pp. 291–324). Coimbra Editora.

Montano, T. (2010). Promoção e proteção dos direitos das crianças: Guia de orientações para profissionais da ação social na abordagem de situações de maus-tratos ou outras situações de perigo. Generalitat Valenciana.

Mota, G. (2024). O exercício da discricionariedade dos magistrados judiciais na jurisdição de menores e a representação do papel dos assistentes sociais das equipas multidisciplinares de assessoria aos tribunais (Tese de doutoramento, Universidade de Coimbra).

OpenAI. (2025). ChatGPT (versão GPT-4 Turbo). https://chat.openai.com

Organização das Nações Unidas. (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos. https://www.un.org/pt/about-us/universal-declaration-of-human-rights

Organização das Nações Unidas. (1959). Declaração dos Direitos da Criança. https://www.unicef.org/portugal/o-que-fazemos/o-que-sao-os-direitos-da-crianca

Organização das Nações Unidas. (1989). Convenção sobre os Direitos da Criança. https://www.unicef.org/portugal/convenção-direitos-da-crianca

Sottomayor, M. C. (2002). Quem são os «verdadeiros» pais? Adoção plena de menor e oposição dos pais biológicos. Direito e Justiça, 16(1), 191–241. https://doi.org/10.34632/direitoejustica.2002.11218

Sottomayor, M. C. (2010). A autonomia do direito das crianças. In Estudos em homenagem a Rui Epifânio (pp. 79–88). Almedina.

Spratt, T., Devaney, J., & Hayes, D. (2015). In and out of home care decisions: The influence of confirmation bias in developing decision supportive reasoning. Child Abuse & Neglect, 49, 76–85. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2015.01.015

Whittaker, A. (2018). How do child-protection practitioners make decisions in real-life situations? Lessons from the psychology of decision making. The British Journal of Social Work, 48(7), 1967–1984. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcx145

Zhou, S. (2024). Analyzing the justification for using generative AI technology to generate judgments based on the virtue jurisprudence theory. Journal of Decision Systems, 1–24. https://doi.org/10.1080/12460125.2024.2428999

Zhu, H., & Andersen, S. (2021). ICT-mediated social work practice and innovation: Professionals' experiences in the Norwegian Labour and Welfare Administration. Nordic Social Work Research, 11(4), 346–360.

Downloads

Publicado

2026-01-22

Edição

Seção

Ciências Humanas e Sociais

Como Citar

O Serviço Social e a tomada de decisão algorítmica: A utilização da inteligência artificial nos processos judiciais de promoção e proteção. Research, Society and Development, [S. l.], v. 15, n. 1, p. e5215150555, 2026. DOI: 10.33448/rsd-v15i1.50555. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/50555. Acesso em: 23 jan. 2026.