Sofrimento socioterritorial indígena: Conflitos socioterritoriais e saúde mental indígena no Brasil
DOI:
https://doi.org/10.33448/rsd-v15i3.50741Palavras-chave:
Saúde mental indígena, Conflitos territoriais, Determinantes sociais da saúde, Povos indígenas, Políticas públicas.Resumo
Este artigo tem como objetivo analisar os conflitos socioterritoriais envolvendo povos indígenas no Brasil e discutir seus impactos sobre a saúde mental, propondo a categoria analítica de sofrimento socioterritorial indígena, compreendida como a manifestação psicossocial dos processos de instabilidade territorial produzidos por regimes persistentes de conflito socioterritorial. Trata-se de estudo teórico-analítico, de abordagem qualitativa, baseado em revisão narrativa crítica da literatura sobre território, ecologia política, conflitos socioterritoriais e saúde mental indígena, além da análise de relatórios institucionais nacionais. Os resultados indicam que os conflitos territoriais configuram processos estruturais e contínuos de instabilidade que reorganizam as condições materiais, relacionais e simbólicas de existência coletiva. Dados do Conselho Indigenista Missionário evidenciam a predominância da omissão estatal como principal forma de violação, antecedendo invasões e confrontos diretos. Observa-se associação entre processos de sofrimento socioterritorial indígena e instabilidade territorial persistente, expressos no agravamento de sofrimento emocional, incluindo ansiedade, depressão, uso abusivo de álcool e desestruturação comunitária. Conclui-se que os agravos à saúde mental indígena não podem ser compreendidos isoladamente, devendo ser analisados na articulação entre território, relações de poder e políticas públicas. A categoria sofrimento socioterritorial indígena contribui para superar abordagens individualizantes, orientando estratégias de cuidado territorializadas e intersetoriais.
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